quinta-feira, 15 de outubro de 2026

A professora muito “machista” (crônica indesejada e desajustada) (#901)

O enunciado assusta, as palavras assustam, assim também o silêncio. Este, às vezes, é até mais envolvente e tocante do que aquelas. Os silêncios dizem e falam, assustam e fazem feridas na alma. O silêncio é palavra cortante que está emoldurado nas indiferenças.

Mas pensemos nas palavras e no nosso posicionar-se, criticamente.

Enunciados estão revestidos de (micro)poderes; eles insinuam ou entregam nossos "lugares de fala", nossas crenças e desvelam nossa face. Por quê? Pois, pela língua(gem), somos alcançados(as) e, igualmente, agimos no mundo. O enunciado é ação (ou omissão) política.

(...)

Através de seus enunciados, tão efusivamente jogados adiante, eu sempre leio: "lutar pelos direitos dos Professores", "felicidades aos Professores", "vamos lutar pelos Professores, os quais merecem todo nosso respeito e valorização" e mais os etecéteras. Ficam perguntas:

O lugar de fala da mulher deve estar cercado pelos pilares do machismo estruturalmente instituído, com especial lugar de vazão pela língua(gem)?

Por que o apagamento das Professoras?

Por que a mulher, justamente ela, não consegue enunciar "felicidades às professoras e aos professores"?, já que a maioria dessa categoria de trabalhadores(as) é constituída por mulheres.

Quais os lugares de atuação política, os quais, inclusive, devem ser plenamente ocupados por mulheres, elas devem preencher? Como agir e buscar intervir?

Por conta de estudos que emaranham língua(gem) e discurso, filosofia e estudos da linguagem/do discurso, relações saber-poder e outras ancoragem, concebemos que o enunciado está inscrito na História, que ele participa de uma rede de relações de poder (por ex: relações de forças, dominações, tensões e resistências entre homens e mulheres), que ele participa de uma luta e essa luta é política [terreno das relações de poder, novamente] – conforme postulações de Michel Foucault.

Por conta desses olhares, e sem desmerecer quaisquer outras formas de reflexão acadêmica ou sociopolítica, nós temos "convicções" em face das palavras, dos enunciados. Por essas inquietações, não é justo dar um ponto de fim a estas linhas sem indagar, mais uma vez e novamente:

Por que abrir mão das lutas, se a língua(gem) é lugar privilegiado de funcionamento delas? Por que alguém que se diz "feminista" e "defensora dos direitos das mulheres", se só consegue homenagear "os professores"?

Porque, talvez, a força das embreagens históricas seja tanta que submete até especialistas no campo da linguagem aos ditames clássicos que constituíram as gramáticas normativas (sociedades de patriarcado e que tiveram, como regra, o machismo enquanto signo de existência e funcionamento).

As ditas gramáticas normativas é que exigem que o masculino seja genérico e funcione, plenamente, em frases tais como "Feliz dia dos professores", quando se está tratando de homens (minoria) e mulheres (maioria) que atuam no campo profissional do magistério.

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